sábado, setembro 22, 2007

Vento

Passou mais de um ano desde que aqui vim a ultima vez... vivi com o coração cheio, a transbordar. Não conseguia pôr no papel - salvo seja - aquilo que foi o turbilhão mais feliz da minha vida.

Mas o vento tem disso também: também nos leva os poucos papéis onde ingenuamente queremos gravar aquilo que só o coração consegue guardar. Talvez por isso, não haja pior furacão do que os da alma: não há papel sobre papel que fique no mesmo lugar, não há página que encarilhe aquilo que as estantes não arrumaram, não há livro que consiga espartilhar as páginas que se rebeliaram...

Ainda assim, nada sai. As tuas folhas ficaram guardadas aqui para sempre, lacradas com o que de mais puro e sincero esta biblioteca te conseguiu oferecer!...

quinta-feira, abril 20, 2006

Pulsar

Há cantos que não são nossos... são de alguém.

É como o ar entre os móveis do nosso quarto: está lá, é nosso, mas há sempre algo mais que o ocupa. Nunca somos nós, ainda que seja o nosso quarto, pelo que algo mais acaba por o ocupar sempre.

Ocupaste todo o ar frio e gelado que tinha. Todos esses vazios entre os cheios do passado, das memórias, das lágrimas, dos sorrisos.

Lentamente, os meus móveis são também teus. Os meus companheiros de solidão reconhecem-te e também eles se entregam a ti. Porque nada há de mais íntimo que partilhar o nosso quarto...

...e deixar que ele bombe pelo nosso corpo, o sangue que nos aquece!

:-)

domingo, janeiro 29, 2006

terra

depois do frio e da chuva
depois da seca
depois do vento

depois das lágrimas, da dor
do medo!...

depois de muitas estrelas contadas...

deixar chegar a Primavera no Inverno,
conseguir ver o sol no meio da chuva,
sentir o calor, ainda a estremecer de frio!
brotar no deserto e florescer...

...e sob a tua luz adormecer...

tranquilo!...

:-)

sábado, dezembro 31, 2005

nox

lentamente, todas as 365 lâmpadas se apagaram. O vento esmagou-as, ora de mansinho, ora implacavelmente...

mas conseguiu esmaga-las. a todas...

domingo, dezembro 04, 2005

dark blue

sinto-me gelar na solidão dum barco que partiu e não vejo mais. sento-me no porto e olho. nele partiu muita da minha felicidade que apenas o tempo poderá trazer de novo.

tenho esperança de avistar ao longe os panos das velas que deixaram em terra tanta tristeza. ainda tenho nas mãos as cordas que o prendiam. como quem não acredita ainda que partiu... como quem acredita que ainda é possivel sonhar pelo seu regresso...

até lá desapareço. e gelo até ao fundo de mim mesmo. e guardo ainda incrédulo, dentro de mim, esse azul negro do mar que o levou...

quarta-feira, outubro 05, 2005

Outono

Está a chegar a estação dos tapetes castanhos, amarelos, vermelhos... Que engraçada que é a natureza: as árvores dispendem tanta energia a criarem as suas folhas, a torná-las viçosas, para depois cairem e acabarem esmagadas aos nossos pés. É mesmo assim... E só assim é possivel renascerem verdes e frondosas na Primavera.

No amor somos exactamente iguais. Quantas vezes o que cultivamos e cuidamos com tanto esmero, não acaba apenas no chão... e nós despidos? Mas nunca é em vão. Como as folhas caídas que não deixam nunca de embelezar o chão, assim os nossos sentimentos não deixarão nunca - se forem bons - de deixar de aveludar o chão dos corações a quem nos dedicámos.

Porque como as árvores também temos o nosso lugar. Porque como as árvores, construiremos com igual esmero e ainda mais carinho as novas folhas de um novo amor. E sob a sombra da sua copa, não existirá nunca lugar para a infelicidade!...


PS: ...para alguém cujo vento não perdoou alguns ramos e muitas folhas, mas que dificilmente arrancará algum dia as raízes. E que reflorescerá... ;-)

sábado, outubro 01, 2005

Branco

Neve. Qual manto que tudo cobre e adormece.
Uma vastidão sob os nossos pés onde caminhamos e deixamos as nossas marcas. Por quanto tempo? Até quando? Para quê...? Para quem......

Há que despertar. Caminhar. Fazer real o chão que pisamos. Reconhecermo-nos nas pegadas que deixamos. Como um risco que se atreve na imensidão duma folha de papel, também nós brotarmos verdes através do gelo após o Inverno.

E maravilharmo-nos com um novo sol que nos brinda.
Renascermos!...