domingo, fevereiro 13, 2005

Máquinas

Somos estranhos. O corpo humano consegue reunir duas coisas profundamente antagónicas: ser um dos mecanismos mais fiáveis e perfeitos na natureza, mas com o comando mais irracional que pode existir.

Que bom que seria se não vivêssemos, mas existissemos apenas. Grande parte dos nossos constrangimentos com o nosso "invólucro" não fariam sentido. E teríamos então tempo pra nos preocuparmos apenas com o que interessa em nós e nos outros.

Mas faz parte da condição humana ter limites. Quanto mais não seja, porque na sua extraodinária abrangência, a nossa mente parece ter infinitos poderes, pelo que teria de se ver confinada a algo tão perfeito, mas também tão frágil, como o nosso corpo. Parecemo-nos então como presentes, prontos a serem desembrulhados. Eternas surpresas nos outros e para os outros.

Pena é que tantas vezes, na precipitação do dia a dia, nos percamos em brilhos e padrões, deixando a nossa máquina errante ao destino: como um presente mal desembrulhado. Será isso a superficialidade? Será a máquina a mandar na mente? Ou pelo contrário, será a mente a ser ela própria, mais humana, soberana e ciente do seu limite e fraqueza?...

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Café

Lembro-me de uma vez me mostrarem um quadro enorme do David Hockney, que era um grande plano a uma chávena de café. Foi numa aula de desenho, no segundo ano da faculdade. Apesar de não guardar as melhores recordações dessa disciplina (e muito menos da senhora professora - mas isso são outros assuntos que agora não interessam....!), tenho de admitir que aquele exemplo me marcou: uma enorme mancha dum castanho fechado, subitamente ampliada, como se afinal o mundo até coubesse naquelas chávenas minúsculas duma bica! Tudo isto a propósito do ritual de tomar café.

Quantas vezes a nossa vida não se faz, sentados à mesa, a beber café? Dei por mim a pensar que foi de facto "abraçado" aquelas pequenas chávenas de porcelana que tantas momentos importantes aconteceram: umas vezes, porque a conversa é dificil e a pequenina asa mais parece uma bóia salva-vidas; outras vezes de penalty, porque o tempo não é muito; noutras alturas ainda, entornando tudo, porque a conversa é tão animada que, num gesto mais hilariante, lá vai tudo pelos ares!

Mas no fim é engraçado. Porque além das conversas, dos momentos, do convivío, fica sempre a memória dum aroma e gosto perfumados, a alegrar o cenário de sensações de todos esses momentos.

No fundo o Hockney tinha razão: que pequenina que é uma chávena de café, mas que testemunha admirável e constante de tantos episódios da nossa vida!

E pensando melhor, o quadro não é afinal tão grande!... ;-)