sexta-feira, janeiro 28, 2005

Máscaras

Nunca estive em Veneza. Adorava! Há uma coisa que me faz lembrar instantâneamente aquela cidade: as máscaras que se vêem esporadicamente aqui ou ali. São exuberantes, requintadas, duma sofisticação admirável. "Italianices"!...

No dia a dia somos parecidos. Não que a vida seja um carnaval (pelo menos para a grande maioria...) mas antes porque temos as nossas próprias máscaras. Nesse aspecto, andar de metro é cada vez mais um ritual fascinante. É o típico local onde mais nos esforçamos por sermos vazios, neutros, inexpressivos: porque estamos cansados, porque o dia foi extenuante e queremos "desligar", porque desejamos alguma privacidade - mesmo que rodeados por este mundo e o outro, acotovelados e a fazer contorcionismo com as tralhas do dia-a-dia!

Ainda assim, se nos abstrairmos de todo esse bulício, continua a existir um ponto em comum com aquela cidade dos canais. Tal como as suas máscaras, há algo em nós que continua a deixar trespassar o que de mais íntimo nos assola. Não que tenhamos falhado nas artes dramáticas, pois nisso até conseguimos ser muito bons. Mas antes porque uma máscara de Veneza, mais não é do que a máscara de uma outra máscara - o rosto - que no entanto raramente oculta o que de mais verdadeiro existe em nós: os olhos.

Quantas vezes não explicam tudo? Aniquilam qualquer palavra? ...ou explicam gestos que não entendemos?... O povo costuma dizer que "são o espelho da alma!"...

Suspeito que tem razão...

ps: depois digam-me se uma viagem de metro não passou a ser um ritual mais curioso!... ;-)

terça-feira, janeiro 18, 2005

Água

A água consegue juntar duas coisas fabulosas: ser transparente e reflectir imagens em simultâneo. Também tem densidade, peso e por vezes até cor... nem que seja reflectida!

Olho para os peixes no lago: pergunto-me se gostarão que os observem. Embora por vezes a água seja turva e não o permita.
E então vemos imagens reflectidas (ou imaginamo-las lá!).

Que somos nós afinal?

O fundo que se vê na transparência,
O peixe que se oculta na opacidade,
Ou a imagem que se projecta?

Nado para a superfície.
Talvez consiga desfazer nela as 1001 imagens que o Universo sem escrúpulos nela projecta. Como se a água não tivesse sido sempre água... transparente!!!


domingo, janeiro 16, 2005

Caleidoscópio

Somos todos iguais e feitos do mesmo. E no nosso interior, raramente nos fazemos de peças diferentes de todos os outros. Variamos é nas combinações: e aí sim, são infinitas!

Faz-me lembrar um caleidoscópio: consome-se em reflexos, que giramos pra conseguir algo de novo e onde reencontramos padrões que nos agradam. Mas as peças são sempre as mesmas. Estão sempre lá.

Surpreendemo-nos quando subitamente, através desses prismas cambiantes que são os nossos olhos, encontramos padrões fora das nossas caixinhas de espelhos. É como se o mundo se surpreendesse a si próprio e invertesse todas as suas próprias regras.

Não sei que nome lhe dar. Talvez o segredo seja mesmo não classificar.
Pois mais do que uma repetição, é desses momentos de surpresa que precisamente existimos.

E de dois caleidoscópios que se cruzam, sim, pode nascer um Universo notável!...

quinta-feira, janeiro 13, 2005

Teatro

Não vou ao teatro há uns tempos. Não sei se por falta de tempo, se por preguiça ou então por falta de interesse mesmo. Depois, também nunca ando assim muito atento ao que está em cena, o que não ajuda muito...

No entanto penso muitas vezes sobre o que é verdadeiro teatro. Suspeito muito intimamente que muito embora assim não pareça, o teatro apesar de encenado é muito mais real que o mundo: ali há um guião, há deixas, há papéis a desempenhar, mas chegamos ao fim, é lavar a cara e vamos pra casa. E o dia termina ali...

E na vida real? Que papéis existem? Onde está o guião? Quem são as personagens?....

Todos somos personagens no dia a dia, e todos desempenhamos um papel algures nessa grande sala que é a vida. Com a particularidade que não temos deixas nem guiões, personagens ou papéis: somos nós próprios vestidos com os turbilhões dos nossos sentimentos, mascarados pelas nossas fraquezas, despidos nos nossos instintos.

Talvez por isso não vá assim tanto ao teatro: afinal, que melhor palco existe que o caminho de todos os dias?...

(um bem-haja aos actores, por serem no fim de contas, os únicos a falar verdade no meio disto tudo!...)


quarta-feira, janeiro 12, 2005

Correr e Ouvir

Não fosse aquilo que, mais aqui de perto, nos diz a Biblia e juro que estaria convencido que até o Adão e a Eva não tinham tempo no paraiso. Passamos o dia a correr! Mesmo!.

Mas até aí tudo bem. Honestamente, até há quem goste das correrias e não abdique delas. E seja como for, até os outros ficaram pouco tempo no paraiso por - "a correr"- se terem portado logo mal.

Bem longe de lições de moral, nos dias de hoje, os riscos de perdermos o paraiso são outros. Quantas vezes por uns minutos (tantas vezes insignificantes!!) não nos rendemos à tirania do relógio, e deixamos de viver ou de dar a atenção devida a amigos e situações que assim o exigem. Quando afinal, a vida não se compõe com minutos, mas sobretudo por esses pequeninos fios, frágeis mas resistentes, que nos ligam aos outros.

Hoje, no meio de tanta correria e com tanta falta de tempo, ainda houve tempo pra tecer alguns desses fios. Fiquei contente.

Consegui fintar esse nosso ditador dos tic-tacs e melhor ainda, contribuir para que as nossas "camisolas" tivessem uma malha mais quentinha...!

segunda-feira, janeiro 10, 2005

a 9ª sinfonia de Beethoven

Num daqueles momentos de distracção, em que sem querer damos por nós a vaguear sabe-se lá por onde, comecei a trautear uma musica: confesso que passei o fim de semana a ouvi-la e quanto mais a ouvia, mais ela se trauteava na minha cabeça. Foi assim que acabei por dar por mim no meio da sala do serviço, a cantarolar.

"-Que é que estás a trautear???!!" - o Pedro andava a verificar umas impressões,e do outro lado da sala apercebeu-se do que estava a ouvir - "é o segundo andamento... exactamente!" - continuou ele - "Sou fã! Adoro Beethoven!"

Fiquei a pensar como é engraçado: os amigos fazem-me lembrar as constelações. Quando olhamos para o céu, numa primeira impressão é tudo escuro. Depois, lentamente, começamos a ver brilhos, cintilações, até que pouco a pouco, ponto a ponto, lá encontramos todas as estrelas que desenham os diagramas celestes.

Nas nossas amizades é exactamente a mesma coisa. Demoramos algum tempo a perceber e a vislumbrar para além do escuro, mas é em pequenos pormenores - insignificantes por vezes - que encontramos o nosso lugar nessas árvores de luz que são os nossos amigos...!


domingo, janeiro 09, 2005

desencontros...

Gostava de perceber se a vida se faz de encontros ou desencontros, ou se afinal, não andamos a chamar as coisas pelos nomes errados. Quantas vezes tantos encontros não são afinal profundos desencontros, e quantas vezes num encontrão desencontrado nos encontramos a nós e aos outros...

E assim se vai fazendo a vida.

E assim vamos coleccionando grão a grão, como areia numa algibeira ao fim dum dia de praia, amizades, afectos, alegrias, lágrimas, que continuamente se encontram e desencontram nos nossos dedos, quando distraidamente rebuscamos o bolso, quiçá à procura duma moeda.

...e que dificil que é encontrá-la!

sexta-feira, janeiro 07, 2005

A estreia....

Pois é. A vida acaba sempre por se fazer de repentes, mesmo quando nada indica nesse sentido. Assim nasce um blog.

Vamos ver até quando...!